domingo, 7 de junho de 2015

AMOR PROIBIDO



Amor Proibido
Janet Dailey
Coleção Livraria, nº 0
Editora Outra , 1985
Assunto Cotidiano

Jordanna Smith era a filha impetuosa e elegante de um destacado banqueiro e de uma colunável glamourosa, uma caçadora que atravessava o mundo ao lado do pai em busca das feras mais bravias. Aos olhos dela ninguém se comparava a seu pai... até a noite em que Jordanna encontrou um rude e estranho jovem que, num momento de exaltação e frenesi, tocou as raízes de um desejo que ela jamais havia conhecido.

Prólogo

O gabinete espaçoso era forrado com magníficos lambris de nogueira. A luz do sol entrava pelas cortinas transparentes que cobriam a porta de vidro que se abria para o terraço do apartamento de cobertura. As paredes brilhavam com um brilho natural. Poucos livros enfileiravam-se nas prateleiras do chão ao teto que ocupavam um canto da sala. Os volumes eram dedicados a armas e caçadas, e estavam gastos pelo manuseio constante. Na sua maioria, as prateleiras continham lembranças e fotos de um caçador ao lado da sua presa. Um carcaju empalhado enfeitava uma prateleira superior, enquanto uma cascavel enroscada parecia ameaçar os incautos, da sua prateleira junto ao chão.
As cabeças de veados e alces, troféus pendurados nas paredes, eram entremeadas com espécimes mais exóticos, como rinocerontes e gazelas. Um lince baio empalhado estava pousado diante de uma singela lareira de tijolos; sua presa, o faisão chinês, achava-se do outro lado. Acima da cornija, duas presas de marfim de um elefante bravio formavam um arco para uma águia dourada, empalhada de asas abertas, protegendo o esquilo cinzento sem vida nas suas garras. No chão, em frente à lareira, jazia a pele de um urso pardo, os olhos vidrados e os dentes expostos, imobilizados numa ameaça silenciosa.
Um armário de armas caro e solidamente construído apoiava-se contra uma das paredes. Os canos de metal das armas brilhavam com a lubrificação cuidadosa, mas as coronhas de madeira deixavam ver os sinais de uso. Uma escrivaninha pesada não exibia papelada no tampo, apenas mais fotos e recordações de caçadas bem-sucedidas.
Dois sofás iguais, cobertos de couro claro, ficavam um em frente ao outro, de cada lado do tapete de pele de urso. Sentado num deles estava um garoto magricela de catorze anos, vestindo um suéter azul-celeste e calça azul de tom mais escuro. Os dedos longos e delicados limpavam, atarefados, a boca de um fuzil. Um cacho de cabelos escuros, quase negros, caíra sobre a testa do jovem, enquanto ele se inclinava sobre a tarefa a cumprir. Havia um ar de perfeição em seus traços sensíveis, como se tivessem sido desenhados por um artista. Cílios longos, espessos e recurvos emolduravam um par de olhos castanho-aveludados, intensamente concentrados no fuzil.
Sentada em frente dele, no outro sofá, uma garota de doze anos estava ocupada da mesma forma, limpando uma arma mais leve. Aí terminava a semelhança. Seu corpinho esguio estava vestido com jeans impecáveis e uma camiseta de malha cinzenta de tamanho exagerado. Seu cabelo comprido caía numa única trança cor de cobre, na parte da frente do ombro. Quando a trança interferia na sua tarefa, a garota jogava-a para trás num gesto de impaciência. Suas feições frescas e animadas brilhavam de vitalidade. Apenas a curva de seus lábios exibia a vulnerabilidade e sensibilidade estampadas no belo rosto do irmão. Seus olhos castanhos eram pintalgados de um verde que podia brilhar de raiva ou excitação, ou ficar escuro e tormentoso como o mar.
De uma poltrona de encosto alto, que havia sido estofada de couro marrom e se gastara pelo uso até um tom castanho-amarelado, um homem supervisionava o par em silêncio. Esfregava distraidamente um pano na coronha de madeira do Winchester no seu colo, num gesto a um só tempo afetuoso e respeitoso. Seu fuzil já fora limpo após o uso recente. Longos anos de experiência permitiram que terminasse antes dos garotos que estava observando.
Um cachimbo de urze branca estava preso entre os dentes, já apagado, embora a mistura aromática do fumo pairasse no ar. Vestindo calça marrom e uma jaqueta peluda, era o próprio caçador. Seus cabelos castanho-escuros tinham um toque avermelhado. Tufos grisalhos e distintos começavam a aparecer nas têmporas. Virilmente belo, tinha um ar distante. Ao longo dos anos, conseguira tal controle sobre suas emoções, que muito pouco do que sentia ou pensava transparecia no rosto bem-feito ou nos olhos castanho-escuros.
Vindo do outro lado da porta fechada do escritório, ouviu-se o som de outra porta se abrindo e se fechando. Imediatamente a cabeça da mocinha se levantou, um brilho fosforescente de animação iluminando-lhe os olhos. O fuzil e os petrechos de limpeza foram rapidamente postos de lado, quando ela se pôs de pé, num salto.
— Deve ser mamãe. Vou contar-lhe a novidade!
— Jordanna, espere. — Quando o homem acabou de tirar o cachimbo da boca para chamá-la, a garota já estava fora da sala. Os cantos da boca do homem se estreitaram brevemente, enquanto ele colocava o cachimbo no porta-fumo ao lado da cadeira. Sem demonstrar nenhuma pressa, levantou-se e foi até o armário de armas. Depois de colocar o fuzil lá dentro e trancar o armário, virou-se e deparou com o ar de expectativa dos olhos do filho. — Acabe de limpar seu fuzil, Kit. Eu o inspecionarei antes que seja guardado. — A ordem firme foi acompanhada de um sorriso.
— Sim, papai. — O adolescente voltou a se concentrar na tarefa sem demonstrar má vontade ou ressentimento, enquanto o pai saía da sala.
Sair do escritório estritamente masculino e entrar nos brocados e lustres da sala de visitas era quase um choque cultural. Um tapete espesso num tom mais suave de verde cobria o chão do aposento espaçoso. As paredes cor de gelo eram adornadas com quadros de mestres italianos, tanto originais quanto cópias caríssimas, numa variedade de pesadas molduras douradas. Um sofá imenso era estofado de brocado azul, com um leve desenho dourado. O sofá era ladeado por mesas em estilo italiano, em cima das quais havia abajures de cristal e bronze; diante dele, ficava uma mesa de centro comprida, de nogueira americana. Duas poltronas iguais, no mesmo tom delicado do tapete, ficavam uma em frente à outra, diante de uma lareira de mármore branco. O tema monocromático de verde-claro era repetido nas cortinas de veludo e nas sanefas drapeadas. Espalhados pela sala viam-se vasos com flores recém-colhidas, todas nos mais diversos tons de rosa.
No centro de toda essa elegância estudada, achava-se uma mulher de cabelos negros, uma criatura estonteantemente linda e sofisticada. Uma empregada de uniforme esperava a seu lado, com um casaco de zibelina jogado sobre o braço, enquanto a mulher tirava graciosamente as luvas pretas de pelica.
— Obrigada, Tessa. — Enquanto entregava as luvas à empregada, sua voz educada a despedia delicadamente; não precisava mais dos seus serviços.
A empregada deixou discretamente a sala, enquanto a garota de cabelos acobreados entrava atropeladamente.
— Adivinhe só! — exclamou para a mãe, excitadíssima.
— Mas, pelo amor de Deus, o que você está fazendo com essas roupas horríveis, Jordanna? — Um par de olhos verde-jade percorreram os trajes da garota com franco desprazer. O costume bege de inverno da mulher tinha o mais moderno dos cortes, e todos os acessórios haviam sido cuidadosamente escolhidos para o melhor efeito possível. — Pensei ter dito a Tessa que as jogasse fora. Você tem um armário cheio de roupas lindas que lhe comprei. Está mais do que na hora de parar de parecer uma molequinha vulgar.
— Estávamos praticando tiro ao alvo. — A crítica da mãe entrou por um ouvido e saiu pelo outro. — Papai falou que posso ir caçar com ele no fim de semana que vem, quando for levar Kit — anunciou Jordanna, com alegria incontida.
As lindas feições de alabastro ficaram imóveis de choque, que aos poucos foi sendo substituído por uma raiva crescente.
— Está falando bobagens.
— Não, não estou — insistiu Jordanna. — Papai falou que me levaria. Verdade. — Com o olhar aguçado, percebeu o movimento a seu lado e se virou. — Se não me acredita, pode perguntar a ele. Você disse que me levaria, não foi, papai? — falou a garota para o homem que entrava na sala.
— Disse, sim — admitiu, o olhar castanho e sereno encontrando o fogo verde do olhar da mulher.
— Jordanna é uma garota, Fletcher. Já não basta você ter que levar Christopher para esse teste nojento de virilidade, e ainda tem que arrastar minha filha?
— Mas eu quero ir — protestou Jordanna.
— Cale a boca e não se meta! — A mãe virou-se feito uma fera para a garota, mal conseguindo controlar a fúria que a fazia tremer. — Isso é entre seu pai e mim.
— Livvie, você está exagerando, como sempre. — O comentário seco forneceu ainda mais combustível para uma cólera já descontrolada.
— Exagerando? — A menina foi esquecida, enquanto a mulher fitava, raivosa, o homem à sua frente. As unhas longas e bem-feitas estavam cravadas nas palmas macias. — É a sua acusação favorita, não é? "Olivia, você está sendo emotiva demais." — Com sarcasmo, parodiou o comentário dele.
— E está — declarou Fletcher Smith, a calma voz de tenor sem uma alteração. — Olhe só para si mesma. Está toda trêmula.
— E o que espera que eu faça? — exclamou, frustrada. — Minha filha me anuncia que vai caçar com você no fim de semana que vem. Ela também é minha filha, Fletcher! Creio que também tenho direito de opinar sobre o assunto. Minha permissão também é necessária.
— Eu gostaria de ter discutido o assunto com você, mas nunca está por perto. Tem uma agenda muito cheia de compromissos, quando estou em casa. — O comentário dele continha uma nota sutil de condenação.
— O que é muito raro! — retrucou Olivia Smith. — E, quando está aqui, passa dois terços do tempo naquele escritório com suas cabeças de animais empalhadas e suas malditas armas! A caça pode ser a sua vida, mas não é a minha!
— Não mesmo? — A boca firmemente esculpida retorceu-se com humor cínico. — Você se sai muito bem caçando o macho da espécie bípede, ao que me consta. Parece ser tão hábil em colecionar troféus quanto eu.
— Por que não vai direto ao assunto, Fletcher? — Seu desafio amargurado era frio de raiva. — Quer saber quantos amantes tive?
A linha tensa do maxilar dele pareceu tornar-se esculpida em bronze. Seu olhar correu significativamente pelo rosto pálido da filha.
— Se pretende continuar neste tópico, Livvie, posso sugerir que espere até Jordanna sair da sala? Considerando-se sua suposta preocupação com as coisas desagradáveis a que ela possa ficar exposta nos seus anos de formação, você não deve discordar.
A mulher deu uma risada trêmula e amarga.
— Como você sabe me fazer parecer uma puta, não é, Fletcher? — murmurou. Arredondando os olhos verdes para conter as lágrimas ardentes, olhou para a filha. — Vá para seu quarto, Jordanna.
Em vez de obedecer, a menina virou-se para o pai e abraçou-o pela cintura, com toda a força.
— Desculpe, papai — disse, engasgando-se com um soluço. — Não queria que ela ficasse zangada com você.
— Tudo bem, Jordanna. — Segurou-a por um instante gostoso, depois endireitou-lhe a trança de cabelo ruivo, para que ficasse encostada à espinha. Livrando-se dos braços que o envolviam, afastou-a com firmeza. — Agora, vá andando.
— Por favor, não deixe que ela me faça ficar em casa no fim de semana — suplicou. — Quero ir com você.
— Eu sei — disse ele, meneando a cabeça, e empurrou-a suavemente para fora da sala. — Vá andando.
Ela saiu do aposento com passadas lentas e desconsoladas. Sua obediência durou até chegar à segurança do corredor. Ali, parou e se grudou à parede, para escutar, desejando ouvir o resultado daquilo, e no entanto odiando as brigas amargas que pareciam magoá-la mais do que a eles.
— Jordanna não vai com você — declarou a mãe. — Já é ruim o bastante você estar levando Christopher. É um rapaz tão bom, tão sensível... Quando se vai dar conta de que não pode forçá-lo a crescer e ser igual a você?
— Considerando-se o modo como você o mimou, vai ser um milagre se ele conseguir crescer. A maioria dos rapazes da idade dele já foi caçar — argumentou Fletcher. — Esperei até agora porque você ficava dizendo que ele era jovem demais. Kit quer ir. Pare de sufocá-lo com seu amor e deixe que ele cresça, Livvie.
— Christopher não quer ir. Se diz que quer, é apenas porque sabe que é o que você deseja ouvir.
— Está enganada. — Não ergueu a voz nem alterou seu diapasão sereno. — Alguns dos seus amigos de escola foram caçar veados, e lhe contaram como foi. Kit está entusiasmado com a caçada.
— Ele não percebe que você realmente espera que ele mate um veado. Ele sente as coisas, Fletcher. Jamais poderia matar um animal pobre e indefeso, a sangue-frio. Você curte isso.
— Quando vai deixar de equiparar a caçada ao assassinato? — quis saber o homem.
— Quando você parar de tentar moldar meu filho naquilo que acha que um homem deve ser! — retrucou ela, com raiva. — Devia tê-lo detido quando comprou o primeiro revólver para Christopher.
— Fuzil — corrigiu ele, automaticamente.
— Fuzil. Revólver. Que diferença faz? Você me convenceu a deixar que ele ficasse com ele. Fiquei vendo você ensinar o menino a usá-lo. Nunca vou compreender como foi que você me convenceu a deixar Jordanna aprender a atirar. Sempre consegue o que quer, Fletcher. Até mesmo concordei em deixá-lo levar Christopher nas caçadas. Mas não Jordanna. Não vou deixar que ela vá com você.
— Os dois querem ir. Também quero. Não é sempre que posso vê-los. Se não estão na escola, então sou eu que estou viajando por aí. Quero um pouco de tempo para sermos uma família, para compartilharmos as coisas.
— Então, fique em casa! Pare de saracotear pelo mundo! — gritou Olivia Smith, cheia de frustração. — Não estou mais pedindo por mim, mas pelas crianças. Pare com essas caçadas sem sentido.
— É o que eu curto. Sobram-me poucos prazeres — afirmou ele.
— Isso é indireta para mim, imagino. Fiz sua vida infeliz, Fletcher? Espero que sim, porque a minha tem sido um inferno desde que me casei com você!
— Liv, por que temos que brigar? Por que não podemos discutir racionalmente? — Correu a mão cansadamente pelos cabelos grisalhos que lhe encimavam a orelha.
— Por que não pode largar as caçadas?
— Você não entende nada de caçadas. Acha que é um esporte de matança. É a emoção da perseguição, Livvie. É jogar a sua habilidade e seus conhecimentos contra os de outrem. É a caçada, não a matança. Venha conosco no fim de semana, e descubra por si mesma.
— Depois de todos esses anos em que fiquei em casa sozinha, você finalmente está me pedindo para ir com você. É tarde demais. — Sua voz rouca latejava de emoção. — Nunca esteve aqui quando precisei de você, Fletcher. Estava em algum safari ou em algum fim de mundo qualquer, onde não podia ser localizado. Sempre me deixou isolada. É de admirar que eu tenha me voltado para outros? No entanto, você põe a culpa em mim. Agora, espera que vá com você, quando não me fez uma única concessão.
— O que acha que é este apartamento? Odeio Nova York. Aqui é onde você deseja morar, não eu. Não é um lugar apropriado para se criar os filhos, embora você não esteja dando a mínima. O que lhe interessa são as compras, as festas e o teatro. — Pela primeira vez, havia um fio de exasperação irada na voz dele. — Não entendo por que está tão chateada pelo fato de eu querer levar tanto Jordanna quanto Kit comigo no próximo fim de semana. Teria dois dias inteiros para passar com o seu amante mais recente, seja lá quem for!
— Pena eu não ter pensado nisso! — disse ela rindo, mas era um som débil e falso.
— Que merda, Livvie! — Agarrou-lhe com força os ombros rígidos, como se quisesse sacudi-la. Você é minha mulher.
Ela se manteve rígida nos braços dele, sem ceder à tentativa de domínio ou à declaração raivosa.
— Há muito tempo que parei de amá-lo, Fletcher. — Vagarosamente, foi libertada, enquanto Fletcher Smith se controlava, para encará-la com a serenidade anterior. Foi Olivia quem desviou os olhos. — Quanto a Jordanna, pode levá-la com você no próximo fim de semana. Dois dias só para mim podem ser exatamente aquilo de que estou precisando. Você venceu, Fletcher... mas, afinal de contas, sempre vence.
— Dou-lhe a minha palavra, Livvie, de que ela não vai dar nenhum tiro. Só vai acompanhar Kit e a mim. Só isso.
Jordanna já tinha sua resposta. Ia participar da viagem. Mas não conseguiu ficar eufórica com a notícia. As lágrimas escorriam por seu rosto. Sentia um bolo pesado no estômago, enquanto percorria o corredor, vagarosamente, na direção do seu quarto.

2 comentários:

  1. Já li este livro duas vezes. É uma história de aventura e romance.

    ResponderExcluir
  2. Já li este livro duas vezes. É uma história de aventura e romance.

    ResponderExcluir