terça-feira, 12 de janeiro de 2016

SOBRE AQUELE HOMEM

Sobre Aquele Homem




Como pode a filha de um dos patriarcas de Trinity Harbor acolher um menor transgressor pego ao tentar fazer uma ligação direta em seu carro?

Daisy não se importa com o alvoroço da cidade. Cuidar desse órfão de 10 anos é uma tarefa fácil, além de ser uma forma de passar menos tempo se lembrando de seu passado trágico.
Difícil é ter que lidar com… Aquele homem. Aquele homem, o tio do menino, é Walker Ames, um policial para quem o sobrinho recém-descoberto é a chance de redenção. Walker passa a freqüentar Trinity, e todos acham que ele está seduzindo Daisy!
Afinal, a professora da escola dominical é uma combinação perturbadora de inocência e atrevimento, em um lugar menos pacato do que parece…

Capítulo Um

Daisy Spencer sempre quis ter filhos. Só não esperava acabar roubando um.
Certo, isso era um pouco de exagero. Ela não roubara exatamente Tommy Flanagan. Em sua opinião, ninguém queria o garoto. Seu pai fora embora há muito tempo e sua deplorável e frágil mãe tivera o infortúnio de morrer na recente epidemia de pneumonia. A história era assunto em Trinity Harbor há semanas.
O coração de Daisy quase se despedaçava quando pensava em toda a dor pela qual passara o garoto de 10 anos. Achava que tinha amor mais do que suficiente para dar para o menino, que fora um dos seus alunos mais inteligentes nas aulas de catequese, um garoto que de repente ficou sozinho no mundo, um garoto que perdera sua fé em Deus no dia em que a mãe morreu.
A própria fé de Daisy fora testada diversas vezes anos atrás quando lhe disseram que nunca poderia conceber um filho. A notícia quase a destruíra. E acabara com seu relacionamento com Billy Inscoe, o único homem que amou.
Billy queria filhos e filhas seus de verdade. Queria seu próprio sangue correndo nas veias deles, queria a prova de sua masculinidade correndo pelas ruas. Queria dar início a uma dinastia tão orgulhosa quanto a Spencer. Quando Daisy não pôde dar-lhe isto, foi procurar outra pessoa que poderia.
Com exceção da pastora da igreja de Daisy, ninguém sabia a verdade sobre o que acontecera entre ela e Billy. Daisy mantivera em segredo, porque fora humilhada demais ao descobrir que não era mulher o suficiente para dar a Billy o que ele achava que precisava de uma esposa. Billy fora discreto pelas próprias razões.
E, até esta manhã, Daisy considerava morto e enterrado seu sonho de ter uma família, juntamente com cada pedacinho de respeito e amor que uma vez sentira por Billy Inscoe.
Nos últimos anos dedicara-se com afinco a sua profissão de professora de História na escola de ensino médio local. Dava aulas de catequese. Levava as crianças para pescar no rio Potomac e para passear em Stratford Hall, terra natal de Robert E. Lee, ou em Wakefield, terra natal de George Washington, as duas cidades eram próximas. Trabalhava no jardim, cuidando de flores e vegetais do jeito que sempre quisera cuidar de seus próprios filhos.
Até mesmo levara para casa uma gata para fazer-lhe companhia, embora Molly passasse pouquíssimo tempo com sua dona, a não ser que estivesse com fome.
Em outra era, Daisy teria sido considerada uma solteirona encalhada, embora tenha acabado de fazer 30 anos. Francamente, havia momentos em que se sentia exatamente assim: uma senhora chata e seca.
No entanto, hoje tudo mudara.
De manhã cedo fora até a garagem e achou Tommy, com frio e tremendo. Estava usando calças jeans sujas, um suéter duas vezes o seu tamanho e uns tênis que eram nitidamente pequenos demais para seus pés que cresciam.
O cabelo louro estava emaranhado sob um boné.
Apesar do lastimável estado em que se encontrava, o garoto estava assustado e desconfiado. Mas ela finalmente conseguiu que ele entrasse, onde ela arrumara uma mesa de café da manhã com ovos, bacon, tortilha de batatas, canjica e torradas. Ele devorara tudo, olhando-a às vezes com desconfiança.

Observando-o, pela primeira vez em anos Daisy sentiu-se animada. Suas preces foram ouvidas. Sentia-se viva. Como se tivesse uma missão. Cuidar desta criança era algo que fora designada a fazer. E tinha a intenção de se agarrar a esta sensação. Até mesmo Molly parecia concordar. Estava ronronando e se arrastando em Tommy desde que ele chegara.

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